“Com 04 anos de idade, já começava a escrever as primeiras letras. Naquela época não se imaginava que iria existir essa coisa de blog. Mas a vontade de se expressar por meio de textos já surgia. Este espaço é uma forma de compartilhar esse desejo. Como se diz: a gente sabe como começa, mas não sabe como isso vai terminar"

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

DO DESLIZE À PLENITUDE

De acordo com Joanna de Ângelis, em O espículo da culpa (2015), a culpa causa a todos nós dores na alma. Segundo ela, as causas dessas dores são os deslizes cometidos e que, por vezes, nem sequer eram considerados como algo prejudicial.

No entanto, devido à progressão a que estamos submetidos a realizar em direção à plenitude, tais deslizes passados são vistos, já em outro estágio evolutivo, como algo ruim e que, portanto, trazem-nos sentimentos de culpa, remorsos, arrependimentos, que nos fustigam como espinhos na “carne da alma”.


Assim, Joanna de Ângelis afirmou: “Qualquer deslize, passado o tempo próprio, retorna e exige retificação, pela pressão do progresso moral e emocional que se adquire. O que antes parecia insignificante ou mesmo sem qualquer caráter prejudicial no momento produz, por não estar enquadrado nos padrões do comportamento digno, o inequívoco sentimento de culpa”.

Para afastar esse sentimento que consome a alma, ela prescreve que devemos, desde já, mudar nossas atitudes, realizando ações dignificantes, “com pensamentos, palavras e gestos de bondade feitos de ternura e de arrependimento sincero”, que irão substituir paulatinamente a culpa, trazendo alívio e paz.

Desta feita, segundo Joanna de Ângelis, “diluirás a culpa, retratarás o espículo (espinho, ferrão) da consciência e avançarás realmente feliz no rumo da plenitude”.

quarta-feira, 14 de março de 2018

O CONTROLE SOB FESTA

Minha filha, Isadora de Souza Gonçalves, 12 anos, sempre teve muito presente a necessidade de fazer Arte. Neste sentido, fazer Arte num bom sentido. E esta fazedura começou a aparecer de forma mais expressiva a partir de seus 05 anos de idade. Conforme entrevista ao Jornal Tribuna Liberal para o agente cultural Wesley Silva, publicada em 23 de março de 2014: “Tudo começou há três anos, quando pediu para seu pai que comprasse telas, tintas, tecidos e um cavalete para fazer da mesma forma que via nos canais infantis da televisão, os quais, segundo ela mesma, mostravam de forma simples e divertida como realizar trabalhos manuais e artísticos”.
Entrevista Jornal Tribuna Liberal, 23/03/2014
Poderia discorrer sobre várias de suas obras ao longo desses mais de 06 anos de produção, e posso dizer que é uma produção intensa e variada, desde quadros, passando por imãs de geladeira, ornamentos para lápis, e decoração de caixas e caixinhas. Mas vou me ater à mais recente, que é a pintura desta caixinha, que a mim foi dada de presente com a advertência taxativa de que sirva como utilidade no mundo da praticidade para bem guardar os controles remotos da TV.
Vi nesta obra algumas influências, conscientes, por conta das aulas de Artes, no que se refere a Romero Britto (1963), e inconscientes, por mesmo nem saber quem era, mas com uma conexão ainda maior com Cícero Dias (1907-2003). Ao final de seu trabalho, já pronto, apresentei-a para este último.

Cores e Formas, de Cícero Dias
Ambos, artistas plásticos brasileiros pernambucanos, têm como forte característica o abuso de uma variada gama cromática muito rica em quantidades e tonalidades. A preocupação com certa geometrização nos faz visualizar com exatidão o espaço que cada cor se encontra na composição da obra, remetendo-nos a uma sugestão visual de que na caoticidade do que é festivo, existe sim uma organização. Cada elemento está lá em seu lugar certo para nos impressionar em toda a explosão festiva do colorido.

Roses View II, de Romero Britto
Por fim, acredito que a minha filha me disse artisticamente que em tudo que seja caótico e festivo tem como vontade em sua essência de ser o detentor do controle, quer seja da TV, da sua programação, da nossa programação.
Encerro esta homenagem à minha filha e a todo mundo que faz Arte (repetindo, no bom sentido que este sentido tem) com uma frase de Pablo Picasso, que consta na entrevista acima referida: “Toda criança é um artista. O problema é o como manter-se artista depois de crescido”.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

DISTINGUIR AS CORES DA LUZ: PROPÓSITO DO OLHAR


Neste último dia 23 de fevereiro de 2018, estive presente ao Sarau das Múltiplas Artes, organizado pela Secretaria de Cultura de Sumaré na Estação e por diversos artistas e agentes culturais da cidade e da região. Houve exposições de livros, quadros, grafites, declamação de poesia, contação de causos, música, dança, teatro etc. Enfim, uma verdadeira celebração e comunhão das Artes.
Dentre os artistas e exposições, tive a oportunidade de me deter a um quadro, sob o título “Zero”, do artista plástico e artesão Paulo Bhai.
As artes plásticas têm como enfoque a criação de espaço, de um espaço virtual que se apresenta através de uma imagem em uma dada superfície, para o contato visual, tornando-o, portanto, um espaço visível.
Contudo, para que este contato visível ocorra é preciso que a obra atraia o olhar do espectador, uma vez que muitas coisas estão à disposição para “puxar” a sua atenção. Mesmo que por um instante, este convite aceito faz com que o espaço virtual tome o espectador para si, atravessando seu olhar, forçando a busca por um entendimento.
Não se trata de se almejar entender o que o artista quis dizer. Trata-se de resolver este incômodo criado ao ser invadido pela vitalidade da obra. É um convite para interpretar, não a obra, mas a si mesmo.
E o que me chamou a atenção nesta obra em tela foi interpretá-la no sentido da representação de um olho. É meu olhar sendo tragado por outro olhar. E ao penetrá-lo em sua profundidade, eis que se revelam imagens que estes olhos viram ou criaram, quem pode saber se o que está à frente de nossos olhos é uma criação, realidade, ilusão de óptica. São visões de um passado e perspectivas de um futuro.


A carga emocional que isto lhe confere estaria representada pela intensidade de cores e como elas se movimentam na tela, ou melhor, no olhar em tela. É interessante que a esclera, conhecida como o branco dos olhos, não é branca. É tomada de sensações coloridas, como uma necessidade de dar vida ao que foi olhado, ao que fora visto e se impregnou na forma como se olha, na forma como se constitui o olhar.
O branco dos olhos, nesta obra, se fixou na íris. O que biologicamente poderia ser considerado como um problema. Mas se é a íris a responsável em ser a porta de entrada para a luz, nada melhor do que representá-la na execução mais perfeita para aquilo ela foi formada. A íris recepciona todas as cores juntas, por isso que se apresenta branca. E conforme a luz vai sendo decodificada, já se apresentam alguns pontos de definição das cores. É o olhar começando a realizar a distinção, repartindo a luz em múltiplas cores, colorindo as ideias para que se manifestem. Tal como o propósito do Sarau das Múltiplas Artes.
Encerro com uma fala a mim dita pelo artista Paulo Bhai, que o Zero, dependendo onde você o coloca pode ser o nada ou pode fazer ser muito.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O CONHECIMENTO COMO JOGO E O JUSTO MÉRITO

Segundo o Professor de História Eduardo Feriani, a avaliação é inerente ao ser humano em qualquer época para o estabelecimento de juízos de valor. Sendo assim, não há como escapar dela. Desta feita, aplicada à Educação, em sua obra Sistema de Pontuação: um método motivador e inclusivo de avaliação*, aborda uma proposta de como se realizar isto de forma que a aprendizagem seja efetivamente constatada. “A função da avaliação não deve ser de classificar, mas sim de verificar diariamente se a aprendizagem efetivamente está acontecendo” (p. 79).
Para o autor, a missão do professor é ser um diferencial para contribuir com a melhoria de vida de outras pessoas, vislumbrando que o objetivo primordial da educação é a conscientização crítica e o desenvolvimento de competências para sua aplicação, tanto em ambientes escolares como em ambientes não escolares.
Para ele,

competência é uma combinação de recursos, de saberes como conhecer, integrar, transpor, aprender, aprender a aprender, envolver, ser, experimentar, observar etc., de aptidões, atitudes e valores que se colocam em ação diante de situações esperadas e inesperadas, constantes ou inconstantes, de simples resolutivas ou complexas e que fazem do sujeito competente um ser único (p. 32).

Para tanto, defende que o professor deva desenvolver as seguintes competências: autonomia, letramento digital, cooperação, organização e comunicação. Destacando o uso das novas tecnologias, pois,


hoje precisamos ser mediadores da aprendizagem, precisamos utilizar as novas tecnologias da informação e comunicação, mas de uma forma integrada ao currículo, que permita ao estudante desenvolver habilidades que se tornarão importantes em sua vida (p. 40).

Contudo, Feriani aponta uma realidade da profissão repleta de obstáculos para se atingir os propósitos do ser professor como mediador da aprendizagem, tais como: certeza da aprovação que leva à falta de compromisso de alguns alunos; remuneração baixa dos docentes que é vista por quem acredita que isto é sinônimo de sucesso como uma diminuição da importância do professor em suas vidas; falta de acompanhamento da vida escolar por parte dos familiares e/ou responsáveis; despreparo e insuficiente suporte para lidar com alunos da Educação Especial; resquícios de autoritarismo em setores da gestão escolar.
Não alheio a isso, ele desenvolve um método, fruto da experiência docente, visto que, enquanto recém-formado, predominava a preocupação em dominar os conteúdos de sua disciplina ou área de conhecimento, tendo esta sido substituída pela preocupação em manter a atenção dos alunos na realidade das aulas. Feriani realizou a experimentação empírica para constatar a eficácia do método proposto e, depois de verificado isto, buscou bases teóricas para subsidiar pedagogicamente sua proposta.
A aplicação toma por base o planilhamento das notas com avaliações diárias, informando aos alunos da nota máxima que será atribuída às atividades na aula e extra-aula, bem como a pontuação de cada um no presente momento a fim de que o próprio aluno faça o acompanhamento. É de se ressaltar que os critérios para pontuação e ganhos e perdas de pontos são válidos para todos e definidos em conjunto, através do que Feriani chama de contrato pedagógico.


Assim, propõe uma metodologia que busca inovar a relação entre professor e aluno a partir do processo avaliativo, desenvolvendo a construção de conhecimento como algo lúdico, como um jogo, e a noção de mérito com bases em conceitos de justiça socialmente construída.
O conhecimento como um jogo é todo aquele que, para ser construído, necessite que se estimule a criatividade, a atenção e que seja desafiador. Que ao longo do ato de jogar, sejam introduzidos elementos inesperados, difíceis e agradáveis. E ao vencer, que significa o conhecimento construído, chegue-se com entusiasmo e com méritos a esse “descobrimento”.

FERIANI, Eduardo. Sistema de pontuação: um método motivador e inclusivo de avaliação. 2ª. ed. Hortolândia: Clube de Autores, 2017.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ARTE E EXPERIÊNCIAS DE SENTIMENTO PARA VIDA COM QUALIDADE

A filósofa Susanne Langer, em seu livro Sentimento e forma*, trabalha com o entendimento de que a crítica de arte não é uma ciência, pois não se preocupa com a descrição ou previsão de fatos. Para a realização da crítica, questões como a relação artista/espectador e o que cada manifestação artística tem o propósito de criar são necessárias para a sua formulação.
Ainda sobre a crítica de arte, defende que ela é importante para o artista no sentido de auxiliá-lo a encontrar seu próprio padrão de beleza ou de expressividade. Não é a crítica, portanto, que dita as regras gerais, justamente porque elas não se aplicam às artes. Cada artista tem que descobrir a melhor maneira de expressar suas ideias, seus conceitos, suas concepções, por meio da obra de arte, lembrando que as técnicas empregadas não são procedimentos mecânicos, ditados.
Para Langer, a função da arte é fazer com que, através das obras, chegue ao conhecimento daquilo que não se conhecia antes, dizendo por suas variadas formas aquilo que não pode ser dito pela linguagem discursiva. Se a função da arte é conhecer o até então desconhecido, ela contribui para a composição de maneiras imaginativas para dizer sobre os sentimentos, pois a “arte é criação de formas simbólicas do sentimento humano” (p. 42).
No que tange a essa criação, Langer aborda duas perspectivas que são levadas em conta na visualização crítica de uma obra de arte: a do artista (perspectiva de expressão) e a do espectador (perspectiva de impressão).

Partindo do primeiro ponto de vista, pergunta-se naturalmente: “O que induz um artista a compor seu trabalho, o que faz parte deste, o que o artista quer dizer (se quis dizer algo) com ele? Partindo do segundo, por outro lado, a pergunta imediata é: “O que fazem, ou significam, as obras de arte em relação a nós?” (p. 15).

Optar por uma em decorrência de outra perspectiva ao se realizar a crítica de arte, segundo Langer, está se correndo o risco de deixar apenas aos artistas a autoanálise de sua expressividade ou deixar apenas aos “marqueteiros” para análise das impressões das pessoas. Portanto, ou um polo ou o outro determinaria decisivamente o valor artístico da obra.
Contudo, é evidente que o primeiro fenômeno das emoções que um artista deseja expor é uma tentativa de formular as suas próprias paixões a “serem consertadas”. “Todas as convenções artísticas são recursos para criar formas que expressam a ideia de vitalidade ou emoção” (p. 291).
Ainda, ao espectador, não há que se esperar que tenha certo distanciamento ou desvinculamento da obra de arte, também denominado de atitude de contemplação ou atitude estética. Este seria um espectador ideal. É a obra de arte que necessita suscitar isto.
O que há de comum nas duas perspectivas é a tentativa de responder à questão “O que é significação na arte?”. Para a autora, a significação artística se dá na medida em que a feitura e contemplação de uma determinada obra constrói a compreensão dos conceitos (ideias, imagens) que ela tenta ser portadora.

Mas normalmente a atração do objeto é maior do que as distrações que com ela concorrem. Não é quem percebe que põe de lado o ambiente circundante, mas a obra de arte que, se tiver êxito, destaca-se do resto do mundo; aquele simplesmente a vê (sente*, termo incluído por mim) como ela se lhe apresenta. Toda verdadeira obra de arte tem tendência de aparecer assim dissociada de seu ambiente mundano (p. 47).

As diversas formas de arte são abstrações, são retiradas de um determinado mundo “concreto”, “real”, para a composição em outro contexto, a fim de servirem a novos usos, manipulando com a semelhança uma associação com saberes.

Acima de tudo, entretanto, a arte penetra profundamente na vida pessoal porque, ao dar forma ao mundo, ela articula a natureza humana: sensibilidade, energia, paixão e mortalidade. Mais do que qualquer outra coisa na experiência, as artes moldam nossa vida real de sentimento (p. 416).

Nesta ação de oferecer um molde articulado aos sentimentos, como um compromisso ético, cabe ao artista alimentar sua imaginação por aquilo que o mundo pode oferecer em suas vistas, sons e eventos, como elementos brutos a serem trabalhados, retirando-os de seus usos comuns em transferências a novos contextos.
Retomando acerca das manifestações ou convenções artísticas, todas se relacionam e tem o propósito de criação de algo, a que Langer denomina de ilusão primária.

Todas as forças que não podem ser cientificamente estabelecidas e medidas devem ser consideradas, do ponto de vista filosófico, como ilusórias; se, portanto, tais forças parecem ser parte de nossa experiência direta, elas são “virtuais”, isto é, semelhanças não reais (p. 197).

Para as artes plásticas, a ilusão primária é a criação de espaço, um espaço virtual. No caso do desenho ou pintura, este espaço virtual se apresenta através de uma imagem em uma dada superfície, fazendo contato visual, tornando-o, portanto, um espaço visível.




O que é, então, esse processo de “animar” uma superfície que na realidade é “inerte”? É o processo de transformar os dados espaciais reais, a superfície da tela ou do papel, num espaço virtual, criando a ilusão primária da visão artística (p. 85).

No caso da escultura, este espaço virtual como ilusão primária é um espaço visual tátil por consequência do volume. “Embora uma estátua seja, na realidade, um objeto, não a tratamos como tal; vemo-la como um espaço inteiramente próprio a ela” (p. 97). Para a arquitetura, a ilusão primária é a criação de um lugar. A obra arquitetônica não está simplesmente em um lugar; ela é o próprio lugar. “O lugar criado pelo arquiteto é uma ilusão, gerada pela expressão visível de um sentimento, algumas vezes chamado de ‘atmosfera’. Esse tipo de lugar desaparece se a casa é destruída, ou modifica-se” (p. 105).
Para a música, a ilusão primária é a criação de tempo audível que é medido pela sensação da duração do movimento na relação entre sons e repousos e na tensão que o ritmo administra.

Não é um período de tempo – dez minutos ou meia hora, alguma fração de dia -, mas é algo radicalmente diferente do tempo em que decorre nossa vida pública e prática ... A duração musical é uma imagem daquilo que poderia ser denominado de tempo “vivido” ou “experenciado” (p. 116).

Ainda sobre a música, há uma conexão entre a composição e a execução. Ambas são atos criativos. E também há o ato de ouvir, que deve ser aprendido, pois, para Langer, é um talento que deve ser exercitado. “A base de todo progresso musical é um ouvir mais compreensivo. E o único apoio que todo artista precisa ter se quiser continuar a criar musica é um mundo que ouve” (p.154).
Sobre a dança, a ilusão primária é a expressão de força vital através de gestos virtuais visíveis. Os gestos de dança criam uma personalidade que se expressa, revelando sentimento ou emoção. “A emoção em que tal gesto começa é virtual, um elemento da dança, que transforma todo o movimento em um gesto de dança” (p. 189).
A arte literária tem como sua ilusão primária o uso das palavras para a criação da aparência de experiências vividas e sentidas, uma peça, um instante de vida virtual, regidas pela lei da imaginação, muito embora se utilize de aspectos discursivos para atingir seu objetivo, visto o enraizamento do pensamento discursivo, daquilo que pode ser “falável”, modelando a experiência individual das pessoas.

Uma vez que todo poema suficientemente bem-sucedido para receber o nome de “poesia” – sem levar em consideração estilo ou categoria – é uma forma simbólica não discursiva, é de boa razão que as leis que governam a elaboração de poesia não sejam as da lógica discursiva (p. 244).

Toda obra literária bem-sucedida é a criação de uma ilusão de experiência. É uma enunciação de um passado experenciado que não perde seu valor emocional ao ser proferida. Mas para a experiência ser distinguível, Langer aponta a memória como a organizadora da consciência humana, atribuindo a ela o reconhecimento do passado e o senso que se tem de história. Cada experiência rememorada é um conjunto de formas e características dadas a pessoas e eventos. O que ocorre no presente só ganha desenvolvimento ou acabamento com a “peneira” que a memória faz. A memória registra para a imaginação criar. Então, “a literatura propriamente dita é o uso da linguagem a fim de criar história virtual, ou vida virtual (...) a semelhança de memória, embora uma memória despersonalizada” (p. 285-286).
Acerca do drama, a ilusão primária é a mesma da poesia, a criação de uma história virtual. Porém sob um aspecto diferente: “Sua abstração básica é o ato, que emerge do passado, mas se dirige ao futuro, e está sempre cheios de coisas por vir” (p. 320). Enquanto a literatura cria um passado virtual, o drama cria um futuro virtual; é o modo do destino.
Ainda sobre o drama, Langer trata do ritmo cômico e do ritmo trágico. A comédia trata da ilusão primária do destino com triunfo, sorte ou aceitação irônica dos infortúnios. Já a tragédia trata da ilusão primária do destino para o fatalismo anteriormente determinado.
Sobre o filme, a ilusão primária da criação de história virtual está relacionada ao modo do sonho. “Em sua relação com as imagens, ações, eventos, que constituem a estória, a câmara está no lugar do sonhador” (p. 429).



Voltando à questão artista/espectador, Langer defende que o artista produz sua obra de arte para satisfazer-se pessoalmente e para outras pessoas, mesmo que o público só venha existir muitos anos depois de sua produção. Mesmo assim, na projeção do artista, há este público hipotético. Em uma obra de arte se expressa o que se sente e se impressiona com aquilo que se tem interesse em ser atraído.
 “Entender” uma obra de arte é uma maneira de conhecer, de aprender a lidar com a intuição de sentimentos, tomando por base saberes anteriores, tanto por parte do artista, quanto por parte do espectador. “Todo conhecimento reporta-se à experiência; não podemos conhecer coisa alguma que não tenha relação com a nossa experiência” (p. 405).
Langer afirma que é possível viver sem arte. A vida é viável assim mesmo. Porém, sem ela, conclui que a vida perde em qualidade. Há um empobrecimento das experiências de sentimento. “A arte não afeta a viabilidade da vida tanto quanto afeta sua qualidade; a esta, entretanto, afeta profundamente” (p. 417).
Assim, a arte contribui para a riqueza de conhecimentos e para existências vitais com qualidade de sentimentos.


*LANGER, Susanne K. Sentimento e forma. São Paulo: Perspectiva, 2011.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LEITURAS SOBRE AS RAZÕES DA CRÍTICA: EDUCAÇÃO DA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

O filósofo e crítico de arte Luiz Camillo Osorio, em sua obra Razões da Crítica, apresenta-nos suas preocupações acerca do papel e da necessidade da crítica de arte. Para ele, o crítico de arte é uma espécie de construtor de espaços para que ocorra o debate de ideias através do contato com as obras artísticas.
Defende também que a crítica de arte deva se desvincular da noção de que o julgamento, resultado da crítica, não seja para condenar ou enquadrar. E sim seja um mecanismo de produzir diferenças, em face de não se haver critérios anteriores e normas posteriores. “O que se almeja para a crítica é que ela se reinvente como um canal disseminação pública da arte e de suas questões mais urgentes. Mudando as formas de arte, transformam-se também seus modos de exposição” (p. 14).
Daí se entende que, além de construtor de espaços de debate, o crítico também tem o papel de reinventar modos de análise das obras de arte. Para tanto,

Deve-se estar a par do ambiente artístico, da história da arte, ter fluência diante de uma dada tradição e de um conjunto de “saberes relacionais”. Acima de tudo, deve-se estar disponível frente às exigências das obras, estar familiarizado com um tipo de experiência proposta pela linguagem a ser traduzida, ou melhor, deslocada pelo ajuizamento e escrita da crítica (p.17-18).

Dotado dessas qualidades, o crítico ao formular seu ajuizamento, ou seja, o juízo que faz de uma determinada obra de arte, o faz por uma necessidade surgida após um impacto criado pelo contato com o objeto artístico, servindo para potencializar o ainda não conhecido em busca de sentidos. Procura construir um entendimento sobre aquilo, tentando compreender e comunicar às pessoas os motivos desse impacto. A isso, o autor denomina de experiência estética.

O entendimento aí não entra para justificar a realidade do objeto, determinando-o conceitualmente, mas viabilizando um acordo livre e indeterminado com a forma refletida pela imaginação. O juízo de gosto é subjetivo, mas isto a principio só implica o fato de ele ser uma experiência sentida pelo sujeito e não um predicado do objeto. Quem tem papel destacado aí é a imaginação. Ela nos abstrai da existência física do objeto, refletindo apenas sua forma, que se entrega sem ser consumida (p. 27).

A experiência estética nasce da desorientação que o impacto em contato com a obra artística produz. Este estado de desorientação é que, para o autor, impulsiona a crítica e o ajuizamento públicos, criando sentidos e estabelecendo distinções.

Uma vez que as obras nos tocam, e como isto acontece é inexplicável, nos vemos dispostos a pensar sobre elas, a analisá-las com mais vagar, a procurar um vocabulário que ponha em foco e dê mais consistência ao sentimento inicial. Vai-se criando um círculo virtuoso em que sentir e conhecer se potencializam (p. 51).

Assim, não se trata de uma análise do objeto em si, mas sim uma análise daquilo que nossa imaginação concebeu pelo contato com esse objeto artístico, que é influenciada pelos nossos gostos, pelas nossas experiências estéticas subjetivas. E, para o autor, há como se educar esses gostos com a participação e circulação nos espaços em que se produzem os juízos pela crítica, em disposição a discutir essas ideias e não simplesmente tomá-las como verdadeiras sem uma autonomia intelectual. “A imaginação que atua no fazer do gênio, atua também na recepção da obra” (p. 41).


Faz parte deste aprendizado da imaginação debater as experiências estéticas de cada um e de realizar um esforço interpretativo para compreender o que a obra lhe diz e o que ela diz a outros, encontrando os pontos de convergência e de distinção e que estão interiorizados em cada um de nós. A educação estética passa mais para o olhar para o interior da essência de cada um de nós do que para o olhar para o interior da essência da obra de arte.
Muito mais do que perguntar o que é arte, a educação da experiência estética nos faz perguntar o que somos nós e cada um.


OSORIO, Luiz Camillo. Razões da crítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

LEITURAS SOBRE A OBRA MEDIUNIDADE: DESAFIOS E BENÇÃOS

O Espírito Manoel Philomeno de Miranda, através de Divaldo Franco, na obra Mediunidade: desafios e bênçãos, apresenta as formas de como se deve praticar de modo saudável a mediunidade, esforçando-se para servir mais e melhor.
Esta evolução se realiza na transformação dos vícios em virtudes, modificando os hábitos que se expressam nos pensamentos, nas palavras e nos atos. Orienta-se que, além da oração, seja indispensável a renovação interior para que ocorra esta transformação para melhor. “O ser humano é, essencialmente, aquilo que cultiva na área mental, movimentando-se na faixa do pensamento que lhe caracteriza o clima existencial” (p. 44).
Na obra, a mediunidade é conceituada como uma faculdade da alma, sendo, portanto, um atributo que todos nós possuímos. E ela permite decodificar as ondas de pensamentos vindas do mundo espiritual. O médium, então, tem o papel de tornar essas ondas de pensamentos inteligíveis aos encarnados. No entanto, importa mais o conteúdo da mensagem do que identificar o Espírito comunicante enquanto era encarnado. Além disso, é este conteúdo que demonstrará o quão elevado é o Espírito e que se mostrará sem formalismos inúteis, paixões e caprichos egoísticos.
Porém, é inevitável que a mensagem decodificada terá a contribuição do médium, aumentando ainda mais a necessidade deste se precaver com relação a seus pensamentos, palavras e atos. Caso contrário, ao invés de trazer benefícios e felicidade, ao médium virão angústias e vinculações espirituais negativas. Também se deve tomar cuidado com a maneira pela qual decodifica e torna pública a mensagem recebida, agindo com equilíbrio, naturalidade e sem presunções egoístas.

O médium, na condição de criatura humana, tem suas necessidades, conquistas, realizações, sendo, portanto, uma individualidade que pensa. Compreensível que, de uma forma ou de outra, contribua com algo pessoal na transmissão da mensagem (p. 40).

A obra nos alerta que a prática da mediunidade reveste-se de um grande desafio, visto os interesses menores que ainda são frequentes em nossa sociedade e que poluem o ambiente, a psicosfera que paira na Terra, podendo interferir na marcha evolutiva do médium. “Ninguém permanece indene à inspiração das mentes com as quais se afina, consciente ou inconscientemente” (p. 63).


Portanto, a educação da mediunidade requer o combate ao ego e ao narcisismo e a elevação dos valores espirituais para que se tenham as melhores e mais saudáveis afinidades possíveis. Afinidades essas que ocorrem por sintonia ideológica e pelos comportamentos mentais e emocionais. É recomendável que os médiuns estejam propícios ao diálogo fraterno, à escuta sobre seus erros, à reflexão e à correção. Voltando, é o conteúdo da mensagem que deve prevalecer como o que realmente mais importa.

Uma das primeiras providências a ser tomada em relação a esse programa iluminativo diz respeito à autoanálise que se deve propor o interessado, trabalhando as imperfeições do caráter, os conflitos comportamentais, lutando pela transformação moral para melhor no seu mundo interior (p. 67).

Apesar desse ambiente hostil e enfermiço, a prática da mediunidade se abastece pelo amor e pela caridade, não deixando a sós todos aqueles que se manifestam a praticá-la de forma saudável.

Dar-te-ei alguém que de agora em diante cobrirá tuas pegadas, por onde quer que vás, com o perfume da minha ternura. Estará ao teu lado em todas as investiduras novas e falará no teu silêncio com a poderosa voz da ação realizadora. Jamais tornarás pelas sendas do serviço a sós (p. 16).

A prática saudável da mediunidade produz bem-estar em face da sintonia com elevadas forças espirituais. Quanto mais o médium se aprimorar mediante sua educação emocional mais ele se qualifica a alcançar estágios superiores, chegando ao que se denomina de mediumato, o apostolado da mediunidade. “Ser médium é tornar-se instrumento maleável e consciente do ministério do amor” (p. 95).
E esta missão se realiza não só nas reuniões mediúnicas, devendo, portanto, estar sempre em vigília numa sintonia elevada, implicando em autoconhecimento, sacrifícios, renúncias, provações, disciplina, caridade e autoiluminação, deixando que se faça a vontade de Deus, num constante enfrentamento com sua realidade mais profunda.
Acerca das reuniões mediúnicas, a obra aponta a importância de serem realizadas de forma responsável, destacando os seguintes requisitos: pontualidade, frequência, cometimento, unção e alegria. Não devendo haver lugar para dissimulações, ressentimentos, antipatias e censuras. “Pensar corretamente, cultivando os ideais de amor, da fraternidade e do bem, é a regra áurea para uma existência saudável, e, portanto, para ser repartida em favor daqueles que se encontram em situação menos favorável” (p. 206).
Nos últimos capítulos da obra, há uma forte preocupação em se tratar das obsessões, fonte de conflitos internos e de relacionamentos e consequência da crise de natureza moral, descrevendo que as más ocorrências físicas e psíquicas são resultados de causas anteriores e da sintonia com os infelizes espirituais.

A sintonia é válida para todos os Espíritos, razão por que a proposta em favor da saúde integral se radica na transformação moral do ser para melhor, que faculta o convívio com os seus e os Mentores da Humanidade, sempre interessados na instalação da ordem, do progresso e da felicidade na Terra (p. 161).

Este convívio deve evitar o coletivismo, no sentido em que se imponham posturas idênticas, dificultando a evolução pessoal, e o individualismo, que se dá pelo afastamento do convívio social, afastando-se das realizações solidárias e dos encontros sinceros, pois “ambos os grupos, a pouco e pouco, distanciando-se, perdem a faculdade do relacionamento saudável, do calor da convivência, da emoção resultante da permuta de ideias e aspirações” (p. 202).
Assim, a obra nos mostra que o trabalho mediúnico é facultado a todos. E que o seja de maneira saudável, tanto para o médium quanto para os que a ele procuram.


FRANCO, Divaldo. Mediunidade: desafios e bênçãos. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2015.